sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Em países andinos, Dia de Finados vira banquete para os mortos



"Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre por muitos e muitos séculos. Amém", reza María Sukilla acompanhada de sua irmã e suas netas no pequeno cemitério de Calderón, no Equador, enquanto oferece aos seus pais falecidos no Dia de Finados um pequeno prato com abacates, bananas, mote (um grão típico da região), batata moída e pão.

"É importante para mim homenagear minha mamãe, minhas irmãs e meu pai. Temos que nos lembrar da família e não abandoná-los", lembra María Sukilla em um castelhano com um forte sotaque quéchua da serra equatoriana.

Entre as sepulturas no chão e um caos de cruzes por todas as partes, os indígenas provenientes dos arredores deste povoado próximo a Quito oferecem, no dia 2 de novembro, comida típica a seus parentes mortos. Trata-se de um ritual que também acontece em outros países andinos como Peru e Bolívia e que se pode durar várias horas.

"É costume dos nossos pais e avós dar comida natural às almas todos os anos no dia 2 de novembro. Chegamos cedo de manhã, lhes fazemos companhia, colocamos oferendas e flores, e comemos com eles ", explica José Samueza, rodeado por seus filhos e netos, na frente do túmulo de seus pais e tios.

Em um túmulo próximo, duas mulheres se levantam silenciosamente, colocam o chapéu utilizado pela maioria dos indígenas da região e, carregando enormes cestas com comida, se afastam de seus falecidos, enterrados em sepulturas simples, assinaladas simplesmente por cruzes cravadas no solo.

Em frente ao túmulo deixaram duas sacolas de plástico com várias guaguas -- pedaços de pão doce em forma de criança. Um entretenimento gastronômico para os familiares que já não estão mais entre nós.

Com “colada morada” -- uma bebida feita de farinha de milho preto, mingau de abacaxi e amora que se ferve por duas horas -- María Samueza (sem relação com José Samueza) adoça nesse dia o repouso de sua mãe, falecida recentemente. Devagar, a mulher entorna o suco em um buraco na terra enquanto reza a "Ave Maria" e o "Pai Nosso". María derrama a bebida até que o líquido transborde, um sinal de que se seu mãe ficou satisfeita.

"Se colocamos na terra é porque eles gostam disso. Faço isso durante toda minha vida. Hoje minha mamãe e meus avós estão aqui (enterrados), e eu sigo o caminho da minha mãe. O dia que eu já não estiver mais aqui, gostaria que também viessem me visitar neste dia do ano, para que se reencontrem comigo", relata María, diante do olhar atento de seus dois filhos pequenos.

Os Samueza e os Sukilla compartilham histórias e rituais com os familiares e os mortos que descansam nas centenas de túmulos do cemitério. Já que, no cemitério, os sobrenomes indígenas se misturam com outros de origem similar, como Callaguazo e Simbana, tanto na superfície, entre os vivos, quanto embaixo da terra entre os finados.

Na maioria dos túmulos localizados verticalmente em fileiras e corredores também é possível ler nomes e sobrenomes sem uma evidente ascendência indígena. Nesta área do cemitério as pessoas costumam oferecer flores aos mortos, enfeitar e limpar suas sepulturas enquanto são feitas algumas orações, sem a oferenda de alimentos.

"Na atualidade se perdeu um pouco o costume. Antes era mais. O povo indígena vinha com a comida preferida dos mortos, de seus entes queridos, se sentavam ao redor do túmulo e ofereciam aos mortos o que eles mais gostavam", explica Cecilia Bedoya, que acompanha seus pais religiosamente todos os anos para fazer oferendas com coroas de flores nos túmulos de seus parentes mortos.

Cecilia, que conta que sua família vive em Calderón há quatro gerações, não pratica a tradição de dar alimento, mas, apesar de não ser indígena, conhece este costume de cabo a rabo e espera que não acabe um dia.

Vicente Uyana também não oferece comida aos mortos. Entretanto, pinta junto com seu irmão o túmulo de seus familiares de cor pêssego, que antes era branco. Um costume, o de mudar a cor das sepulturas, que a família faz quase todos os anos.

"Para mim é muito importante porque é a primeira vez que faço isso em meu país, pois vivi nos Estados Unidos por 25 anos. Retornei há pouco tempo, há apenas três meses. Por isso hoje lembrarei meu pai e minha mãe dedicando a eles este dia inteiro", afirma Uyana, de 73 anos.

Uma multidão de curiosos visita este pequenino cemitério todos os anos no dia 2 de novembro, enquanto os parentes dos mortos realizam seus rituais, os curiosos os observam com ceticismo, curiosidade e hospitalidade.

"Me dá uma moedinha para uma foto", pede um indígena a um ávido repórter.

"Dê-lhe, dê-lhe (ofereça) uma pequena porção de pão e ‘motecito’ (bebida típica) ao jovem", diz a matriarca dos Sukilla a uma de suas netas, em referência a um dos visitantes.

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